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Ilustracao editorial de controle financeiro: livro caixa aberto e calculadora

Controle financeiro pequena empresa: como saber se sobra

Rafael Souza · 11 de junho de 2026 · 8 min

Você até consegue dizer quanto faturou no mês. E quanto pagou de boleto. Só que na hora de responder "sobrou quanto", trava. Esse artigo mostra como sair desse ponto cego sem virar planilheiro.

Controle financeiro pequena empresa: o problema não é anotar, é enxergar

Você sabe quanto entrou no mês. Tem extrato, tem maquininha, tem caderno. Sabe quanto saiu: pagou fornecedor, pagou folha, pagou aluguel. Mas na hora que alguém te pergunta "sobrou quanto pra você?", trava.

Esse é o ponto cego de quase toda PME brasileira. Faturamento alto, conta no vermelho, pró labore parcelado no cartão. Você roda o negócio inteiro de cabeça e ainda precisa esperar o contador fechar pra entender se o mês foi bom.

O objetivo aqui é resolver isso. Controle financeiro pequena empresa não precisa virar uma planilha de 47 abas. Precisa de três contas, cinco números e uma rotina semanal de quinze minutos. Não mais que isso.

A diferença entre faturamento e lucro real (e por que isso te enrola)

Faturamento é tudo que entra. Lucro real é o que sobra depois de pagar tudo, inclusive você. A confusão começa porque a maioria dos donos olha pro extrato, vê um saldo positivo no dia 20, e acha que tá sobrando.

Exemplo concreto. Loja de roupa fatura R$ 80 mil no mês. Olha o extrato dia 20, tem R$ 22 mil na conta, dá uma respirada. Dia 30 entra folha (R$ 18 mil), aluguel (R$ 6 mil), fornecedor parcelado (R$ 12 mil) e imposto (R$ 4 mil). Resultado: faltou R$ 18 mil pra fechar.

O dono não viu vindo. Não porque é ruim de conta. Porque tava olhando o saldo de hoje em vez de olhar o saldo projetado de daqui dez dias.

Faturamento é quanto entrou. Lucro é o que resta depois de pagar tudo, inclusive você e o imposto. São coisas diferentes.

Como calcular o lucro real do mês?

Pega o faturamento. Tira:

  • Custo direto (mercadoria, matéria-prima, comissão de vendedor)
  • Despesa fixa (aluguel, internet, folha, contador)
  • Despesa variável (energia, água, combustível)
  • Imposto (Simples, ICMS, ISS)
  • Pró labore (o seu salário, mesmo que você não tire ainda)

O que sobra é lucro. Se der negativo, você tá operando no prejuízo mesmo com o caixa cheio. E isso acontece toda hora em PME que cresce rápido.

O fluxo de caixa em 3 contas: entrada, saída, sobra

Esquece planilha gigante. Começa com três contas mentais. Só três.

Conta 1: Entrada. Tudo que entrou no dia. Vendas no PIX, cartão (descontada a taxa), boleto recebido, recebimento de cliente atrasado. Anota o valor líquido, já descontando taxa de maquininha e Simples Nacional se você já sabe a alíquota.

Conta 2: Saída. Tudo que saiu no dia. Pagamento de fornecedor, folha, aluguel, conta de luz, retirada sua. Sim, sua retirada conta. Se você passou R$ 200 no cartão da empresa pra almoçar, isso é saída.

Conta 3: Sobra projetada. Saldo atual menos tudo que já tá compromissado pros próximos 30 dias. Essa é a conta que ninguém faz e que devia ser o primeiro número da manhã.

Exemplo. Conta 1 do mês: R$ 65 mil entraram. Conta 2: R$ 58 mil saíram. Sobrou R$ 7 mil de caixa. Mas olha a conta 3: nos próximos 30 dias você já tem R$ 9 mil compromissado em boleto e folha. Sobra real projetada: menos R$ 2 mil. Você precisa correr atrás de receita agora, não no dia 28.

Controle financeiro pequena empresa não é sobre o que aconteceu. É sobre o que vai acontecer nos próximos 30 dias.

Categorizar despesa: fixo, variável, investimento

Toda despesa cai em uma de três caixas. Saber em qual caixa cada uma vive muda tudo na hora de cortar custo.

Despesa fixa

O que você paga todo mês independente de vender ou não. Aluguel, internet, folha do funcionário fixo, contador, sistema. Em PME de serviço, despesa fixa geralmente é 40 a 55% do faturamento. Se passou disso, você tem problema estrutural, não de venda.

Despesa variável

O que sobe e desce com o volume. Comissão de vendedor, taxa de maquininha, imposto sobre faturamento, matéria-prima, combustível se você entrega. Quanto mais você vende, mais você gasta nesses. Beleza, isso é saudável. O cuidado é quando a margem fica curta demais e você tá vendendo muito sem ganhar nada.

Investimento

Gasto que devia voltar pra você. Anúncio no Instagram, treinamento de equipe, equipamento novo, reforma do salão. Investimento bom tem retorno mensurável: você gastou R$ 3 mil em anúncio, gerou R$ 18 mil em venda nova, retorno de 6x. Investimento ruim é aquele que você não consegue medir, e aí vira despesa disfarçada.

Exemplo de divisão real em barbearia que fatura R$ 35 mil/mês:

  • Fixo: R$ 16 mil (aluguel, salário de dois barbeiros, contador, sistema)
  • Variável: R$ 8 mil (comissão, produto, maquininha, Simples)
  • Investimento: R$ 2 mil (impulsionar post no Instagram, curso de técnica)
  • Sobra: R$ 9 mil, dos quais R$ 6 mil viram pró labore do dono e R$ 3 mil ficam de reserva

Sem essa divisão, o dono olhava R$ 9 mil sobrando e gastava em coisa aleatória. Com essa divisão, ele sabe que R$ 3 mil já tem destino: caixa de emergência.

Como saber quanto pagar pra você (pró labore real)

Aqui mora um dos pecados mais comuns. O dono não tira pró labore fixo. Tira "quando sobra". Resultado: ele não sabe se o negócio paga ele de verdade ou se ele tá financiando o negócio com o próprio bolso.

Regra simples: pró labore tem que ser tratado como despesa fixa. Você define um valor mensal, paga pra você no mesmo dia que pagaria um funcionário, e ponto.

Como definir o valor? Três referências:

  • Mercado. Quanto custaria contratar alguém pra fazer o que você faz? Se você é o gerente operacional de um restaurante que fatura R$ 200 mil/mês, um gerente custaria uns R$ 6 a 8 mil. Esse é seu piso.
  • Realidade. Quanto você precisa pra viver com dignidade, pagar suas contas pessoais sem apertar? Anota e compara com o número de mercado.
  • Capacidade da empresa. Se você define R$ 10 mil de pró labore e isso joga a empresa no vermelho, você tá com problema de margem, não de pró labore. Mas finge que tá tudo bem não resolve.

Exemplo. Dona de pet shop fatura R$ 45 mil/mês. Despesa fixa R$ 20 mil, variável R$ 12 mil, sobra bruta R$ 13 mil. Pró labore dela: R$ 7 mil fixo, todo dia 5. Sobra R$ 6 mil que vai 50% pra reserva e 50% pra reinvestir. Três meses fazendo isso e ela parou de "achar" que o negócio paga ela.

Quando aumentar o pró labore?

Quando o lucro líquido (depois de tudo, inclusive seu salário atual) der positivo consistente por três meses seguidos. Aí você sobe o pró labore em 10 a 20% e observa mais três meses. Subir cedo demais quebra o caixa. Não subir nunca faz você desistir do negócio.

Os 5 números que você precisa olhar toda semana

Você não precisa de relatório de 40 páginas. Precisa desses cinco, toda segunda de manhã, quinze minutos.

  1. Saldo de caixa hoje. Soma de tudo que você tem em conta corrente e dinheiro físico. Número cru, sem análise.
  2. Contas a pagar nos próximos 30 dias. Todo boleto, folha, fornecedor, imposto que já tá agendado. Soma tudo.
  3. Contas a receber nos próximos 30 dias. Cliente que já prometeu pagar, parcelas que vão cair, recebível de cartão. Soma tudo.
  4. Sobra projetada. Saldo hoje + a receber em 30 dias - a pagar em 30 dias. Se der negativo, sinal vermelho.
  5. Margem do mês até aqui. Lucro acumulado dividido por faturamento acumulado. Se você normalmente roda em 15% e tá em 8%, alguma coisa mudou. Vai investigar.

Esses cinco números respondem 90% das dúvidas que te tiram o sono. O resto é detalhe de contador.

Por que controle financeiro pequena empresa trava no Excel

A planilha funciona nos primeiros três meses. Depois ela cresce, ganha aba, ganha fórmula que ninguém mais entende, e um dia você abre e não sabe se aquele número tá atualizado.

É aqui que a maioria das PMEs perde o controle. Não por falta de disciplina. Por falta de uma rotina automática que conecte o que entra (venda no PIX, cartão, boleto), o que sai (boleto, folha, retirada) e o que tá projetado (recebimento futuro, conta a pagar).

A Lu olha pros seus números do jeito que um sócio financeiro olharia. Você conecta as suas vendas, as suas despesas, e ela mostra: faturou X, gastou Y, sobra Z, e olha aqui, esse fornecedor tá consumindo 18% do seu faturamento, faz sentido?

Não é planilha bonita. É leitura. A gente analisa, você decide.

Quanto tempo demora pra ter controle financeiro de verdade?

Se você começar hoje com os cinco números e a rotina semanal, em 30 dias você já sabe se o mês vai fechar ou não com uma semana de antecedência. Em 90 dias você para de ter surpresa no dia 28. Em seis meses você começa a planejar investimento em vez de reagir a aperto.

O que muda não é ferramenta. É o hábito de olhar pros cinco números toda semana. A ferramenta só torna isso mais rápido do que ficar somando coluna no Excel.

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